segunda-feira, 27 de abril de 2015

Adotar.



Caía uma chuva torrencial na cidade de Belém, era o fim da tarde quando através de uma ligação tudo mudou na vida de uma senhora e do seu marido. Ela não se conteve e mesmo em meio a raios e trovões, resolveu enfrentar a chuva em nome de um bem maior: o seu pequeno milagre, o recomeçar da sua vida, a personificação do amor, a sua futura filha.

Era um casebre humilde, ela se encontrava numa rede que um dia já foi branca, pequena, frágil, chorando. Foi quando o olhar das duas se encontraram, da sua futura mãe e da criança que não havia se acostumado a viver fora da barriga da sua mãe biológica. E o chorou cessou.

Uma nova vida se iluminou.
A minha.

Nunca fui de falar abertamente sobre quem eu sou, quem eu já fui ou quem um dia vou ser. Sou uma menina-mulher repleta de sonhos. A única certeza que tenho na minha vida é que tudo se deve aos meus pais. Eu não seria um terço do que eu sou hoje sem os conselhos, brigas, e acima de tudo, amor deles.

E me incomoda muito o fato de algumas pessoas ainda terem a mente fechada em relação a esse assunto: Adoção.

Adotar é um ato que transcende qualquer barreira de sentimento, de compreensão, de felicidade, de realização. É algo que precisa ser colocado em vista pela nossa sociedade, não é por que eu nasci e a minha família  biológica não teve condições ou qualquer outro motivo pra me criar, que você deve me julgar. Isso se aplica no geral.

Não é por que uma criança vive em um orfanato, do qual você não acompanhou o nascimento dela, crescimento, etc.. que ela vai ser pior do que alguém, pelo contrário, ela precisa acima de tudo de carinho. Ela não é “um objeto” que pode ser descartado.

“Eu adotei, mas, não me acostumei com a criança. Achei melhor trazê-la novamente para o orfanato ainda no período de adaptação” Você tem ideia do quanto isso dói? Principalmente, pra uma criança que já cresceu sem pais, sentir que foi rejeitada novamente? Se você não tem certeza sobre a adoção, não tome partido. Pois, você está lidando com uma vida. Uma pessoa que cheia de esperanças e expectativas.

“ Eu nunca vou adotar, não sei como a criança foi criada, vai que ela tem algum problema psicológico”  Primeiro, quem deve ter um problema psicológico é você. Tente ser criado num orfanato, onde todos os dias você vê pessoas que podem ou não se tornarem os seus pais ou até mesmo os seus amigos indo embora, acordar todos os dias, olhar pro teto, orar e sempre com a mesma pergunta: será que eu ter vou um lar hoje? Será que os meus pais finalmente vêm me buscar? Eu vou ter uma família?

Elas só desejam serem amadas e ter um lugar pra finalmente poder chamar de lar. Adotar não é um ato de caridade, não é pra qualquer um.

É ver o outro antes de pensar em si, é educar, é no meio de uma discussão por besteira abraçar e não falar nada, só pelo simples fato de estar ali. Eu, Silvia da Conceição Santos de Castro, fui adotada. E não tenho a mínima vergonha de falar, por que eu amo meu pais  mais do que a mim mesma e faço de tudo para vê-los felizes. Por que quando o meu mundo não fazia sentido, quando tudo era preto e branco.. Uma senhora resolveu sair no meio da chuva e ir me buscar naquela rede.

E os meus futuros filhos, adotados ou não, saberão dessa história, pois, vou contar da mesma maneira que estou fazendo agora: com lágrimas nos olhos. Não de tristeza e sim de felicidade. Muita felicidade.

Eu amo vocês, D. Maria e Sr. José. Amo mais que tudo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Com um pequeno gesto tudo fez sentido.

Eu estava na parada de ônibus à espera do meu bendito Guamá presidente Vargas que sempre tardava a chegar. Meus amigos sempre me falaram que eu sou muito sonhadora e sou mesmo, amo propor histórias pra pessoas aleatórias, suponho que cada rosto tenha um mistério guardado por debaixo dos desgostos do dia-a-dia.

E foi assim que repousando o olhar avistei um casal sentado no banco da praça do operário, em frente do ao terminal rodoviário, um homem de estatura média de cabelos longos e loiros, sem camisa, visivelmente amanhecido fitava uma mulher morena, a mesma procurava não encara-lo, ele gesticulava como se quisesse respostas. O casal em si não foi o que me chamou a atenção, mas, sim a tristeza nos gestos dela. Ela colocava as mãos sob as pernas, fechava o punho e sempre olhava as folhas que caiam das árvores, de alguma maneira as folhas prendiam totalmente a sua atenção. Creio que ela se personificava na folha, como se a sua vida estivesse caindo, caindo..

A moça só esperava que tivesse uma aterrissagem leve e que um novo ciclo começasse com a chegada de uma nova estação. Foi então que ela sorriu e respondeu algo ao rapaz. A expressão dele era um misto de susto/angústia/terror, ele cruzou as pernas, colocou o cabelo atrás da orelha e não disse uma palavra.

Então, com um único gesto tudo adquiriu um completo sentido. Ela levou a sua mão até a barriga e acariciou como quisesse proteger o seu futuro filho(a) do egoísmo do mundo e ele se inclinou colocando a mão sob a dela, suspirou e deu um pequeno sorriso apoiando-a.


Logo vejo uma movimentação na parada, pensei que as pessoas ali tinham captado o que  eu tinha acabado de ver , porém, era apenas o meu bendito Guamá que tinha chego. Só que hoje  eu estava feliz com o atraso dele.